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Chile recebe destaque como referência mundial de astroturismo

Ana Castañeda, especialista em turismo da ilha de La Palma, com experiência no setor público, falou sobre o desenvolvimento do turismo astronômico da ilha e sobre sua visão de nosso destino como referência no tema no hemisfério sul.

Conscientização do valor dos céus para observação de estrelas, certificação Starlight como destino turístico e como primeira Reserva Starlight do mundo, tematização de alojamentos e uma rede de mirantes astronômicos são parte das características de La Palma, destino que faz parte das Ilhas Canárias, na Espanha, e referência europeia de astroturismo.

Ana Castañeda, técnica em atividades turísticas e chefe da seção de assuntos gerais do serviço de turismo de La Palma, esteve no Chile em setembro, e expôs sobre o desenvolvimento do astroturismo na ilha no Primeiro Seminário Internacional de Astroturismo do país. Na ocasião, ela conversou com o Turismo Chile aprofundando-se em alguns temas, como a estratégia de La Palma para se posicionar como referência em astroturismo, e falando sobre sua visão de como o Chile está em relação ao tema.

Em 2010, vocês vieram de La Palma ao Chile.   Qual foi o objetivo?

– Em 2009, o ano internacional da astronomia, a Espanha caiu em uma crise turística, que afetou muito a ilha de La Palma, porque não tínhamos um produto diferencial, e fazíamos uma promoção de sol e praia, como todo o resto das Ilhas Canárias faz. Considerando-se isto, e após a Conferência Internacional de Starlight realizada na ilha em 2007, quando foi firmada a “Declaração Startlight de La Palma”, surgiu a necessidade de criar um produto vinculado com as estrelas, o que havia sido esquecido com o passar do tempo.

Assim, voltou-se a valorizar o fato de que era possível ocupar o céu como produto turístico, criando-se conselhos: um a nível técnico, e outro a nível institucional com diferentes órgãos envolvidos. Em feiras internacionais procuramos outros destinos turísticos que tivessem o astroturismo como produto, para conhecer o que eles haviam desenvolvido, e para saber onde encontraríamos informações sobre isto. Na Feira Internacional de Turismo de Madrid (FITUR) encontramos o Chile e a Região de Coquimbo, e começamos a entrar em contato. A primeira coisa que fizemos foi uma visita a La Palma com o pessoal de Coquimbo em 2010, onde foram realizadas conferências e reuniões para fazer intercâmbio de informações. Nessa visita ficou programada outra, para nós, com a ideia de conhecer a oferta do Chile em termos de turismo na Região de Coquimbo.  Assim, no final de 2010, eu fui com um grupo de cinco pessoas conhecer as iniciativas que estavam sendo desenvolvidas.

Visitamos observatórios, alguns alojamentos tematizados, tivemos reuniões e nos reunimos com empresários da região. A partir desse momento surgiu uma relação natural entre os dois destinos. Quanto a nós, conseguimos um financiamento para fazer coisas na ilha, pois foram firmados convênios com o Ministério e com o governo de Canárias no final daquele ano, e em 2011 começamos a implementar os projetos para gerar a tematização e começar a trabalhar o produto.

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Como acharam que o Chile estava em relação ao astroturismo, na época?

– Ficamos impressionados. Fomos embora muito tristes, pois não tínhamos absolutamente nada, e vocês tinham tantas coisas. Estavam tão à frente. Conhecemos alguns alojamentos tematizados, como o Hostal Apuwara, conhecemos vários observatórios turísticos, como o Cruz del Sur, o Mamalluca e o Collowara, e estivemos em observatórios científicos, como o Tololo.

No aspecto científico, não tivemos tanta surpresa, pois em La Palma também temos observatórios desse tipo. Em termos mais turísticos percebemos que vocês já tinham uma rede impressionante de observatórios astronômicos, e que todo mundo dizia que vocês tinham um céu estupendo, que era o melhor céu do mundo. Falavam com respeito e com ilusão sobre o céu e sobre o produto astroturístico. Havia consciência por parte dos cidadãos. Nos surpreendeu ver as pessoas falando assim, e ver que já tinham algumas iniciativas de tematização em restaurantes e alojamentos.

Isso foi há quase seis anos. Vocês voltaram ao Chile ao longo desse tempo?

– Não tínhamos voltado até agora. Na ilha, tivemos a visita de um representante de Coquimbo em reuniões e em alguns seminários que fizemos, pois queríamos que o nosso pessoal também se conscientizasse e visse o que era possível fazer.

Agora que você está aqui, sente que o Chile avançou neste aspecto?

– É impressionante a sinalização rodoviária que vocês têm na estrada Gabriela Mistral. Tem coisas a serem melhoradas, é claro, como aquilo que conversamos em uma reunião sobre sinalizar os elementos de observação mais próximos aos alojamentos tematizados. Também vi novas iniciativas como o Alfa Aldea, e agora o Mamalluca tem uma parte nova, e existem pequenas iniciativas privadas. Eu vi progresso.

Em pouco tempo vocês conseguiram avançar bastante…

– Quando não se tem nada, é fácil perceber algum destaque, pois a projeção pode ser vista. Em seis anos, nós percorremos um caminho muito importante, desde não ter nada até ter o que temos. Um dos aspectos importantes é a conscientização a nível político e por parte dos cidadãos. E o nível político está interessado no produto astroturístico.

O trabalho que vocês têm realizado tem um elemento de visibilidade importante

– Também foi algo que surgiu no momento adequado.  Com a criação da Fundação Starlight, os destinos que vão sendo certificados ganham visibilidade, como aconteceu com La Palma. Então, nos tomaram por referência a nível europeu. Vieram inclusive do Canadá para ver como tínhamos feito a tematização. Isso também nos ajudou. Passamos do não ter um produto ao contar com algo que está começando a nos dar destaque, o que fez com que o governo regional também se envolvesse.

La Palma e o Chile são dois destinos que não podem ser comparados em relação ao tamanho. O trabalho de conscientização, para nós, tem sido mais fácil, porque aqui é menor. O que temos a oferecer em astroturismo está controlado, sabemos o que é e está dentro do nosso plano de ação. Nas prefeituras, por exemplo, temos aplicado a lei do céu, e eles estão conscientes de que ela precisa ser aplicada. Há anos vem-se conscientizando de que é necessário e obrigatório, porque os observatórios precisam disso. Acontece que o resultado e a visibilidade deste trabalho, ao aplicar um aspecto turístico, a infraestrutura dos mirantes e das trilhas, junto com a tematização das empresas e das lojas de souvenirs com merchandising do assunto, gera visibilidade para o turista que passa.

O assunto é atraente e a imprensa local tem dado muita importância, da mesma forma que o Ministério do Turismo, que nos deu um prêmio nacional como destino emergente pela criação de um produto estrela. Tudo isso vai colocando você em um plano de visibilidade, que antes não tínhamos. A nível político e administrativo tem-se tomado consciência disso. Agora mesmo estão apostando em executar projetos de astroturismo que foram solicitados, como o do observatório astronômico e o da cúpula de observação que será construída.

Quando há efemérides pontuais, estes destinos de maior destaque sempre vão aparecer como os melhores lugares do mundo para observar as estrelas, por exemplo. Este tipo de reportagem nos coloca em foco e nos dá visibilidade. A mídia a nível nacional e internacional tem tido um interesse extraordinário no astroturismo, e começou a mencionar o Chile de um lado e a Espanha de outro. Parece que o astroturismo é um assunto que está na moda, e você tem que tirar proveito dela.

Na Europa, sempre foi feito observação astronômica, mas isso de que um destino fosse certificado, tematizado e incorporado ao mercado como produto não havia sido feito em nenhum lugar que nós saibamos. Estamos conscientes de que também foi uma questão de circunstâncias e de um pouco de sorte, considerando que as coisas foram acontecendo.

Observatorio Las Campanas

Observatorio Las Campanas

Apesar disso, vocês sentem que o Chile está melhor posicionado em relação ao astroturismo?

– Sim. É que no Chile isso tem sido feito há anos. Por exemplo, o Mamalluca tem quase 20 anos de funcionamento. Nós, por outro lado, temos anos de atraso. Não temos as grandes infraestruturas que vocês têm, o que forma uma rede potente de observatórios turísticos, que nós gostaríamos de ter.

Em La Palma não existem observatórios turísticos?

– Ainda não temos observatórios turísticos. O que fazemos é realizar passeios nos mirantes astronômicos, onde são montados telescópios portáteis, e é feita a atividade. No Chile, a oferta em turismo é mais completa, pois vocês têm muitas ofertas disponíveis.

Em La Palma, mais de 40% da superfície insular é protegida. Como o observatório turístico que vamos fazer está dentro de um espaço natural protegido, tivemos que ver uma série de requisitos legais. Então, qualquer iniciativa que quisermos não será tão fácil. No Chile, vocês têm maior facilidade em relação à superfície.

O que você acha que falta no Chile em relação ao astroturismo? E o que você considera necessário para continuar melhorando?

– Eu tentaria – se estamos falando em crescer e atrair mercados turísticos – pensar na construção em parâmetros mais europeus. Apesar de haver clientes de todo tipo, também é verdade que há aqueles que não ficarão à vontade em um camping, porque preferem um hotel. Há estabelecimentos muito bons, onde estão sendo feitas iniciativas com telescópios e cúpulas. Talvez aí poderia ser feito um alojamento mais hoteleiro, o que poderia melhorar a imagem. De qualquer forma, isso depende de cada mercado.

O convênio que vocês têm com Coquimbo procura gerar uma rede de destinos astroturísticos?

– Sim. Pretendemos contar com padrões de qualidade. A ideia é que não seja qualquer região que possa ser certificada como região astroturística ou Starlight. Deveriam contar com requisitos mínimos, como alojamentos tematizados, infraestrutura, etc. Agora estamos conscientes de que tanto a região de Coquimbo quanto La Palma têm alguns elementos mínimos.

Então, a ideia não é competir, mas sim serem destinos complementares

– A ideia é colaborar para marcar uma diferença e poder ter um padrão digno e de qualidade. Estes dois lugares são ponteiros no hemisfério norte e no hemisfério sul. Queremos continuar nos mantendo assim.

Também procuramos nos assessorarmos, aconselharmos, colaborar e fazer eventos potentes de astroturismo para fazer conscientização, e que nos mantenham visíveis, para que nos citem de vez em quando e, assim, nos mantermos presentes nos meios de comunicação.

 



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